sexta-feira, 30 de abril de 2010

Canção do Amor Imprevisto

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.


Mário Quintana

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Só de sacanagem.

Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta a prova? Por quantas provas qterá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro. Do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança será posta a prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? é certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mintira do maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e todos os justos que os precederam. "Não roubarás!", "Devolva o lápis do cologuinha", " Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar! Até habeas corpus preventiva, coisa da qual nunca tinha ouvido falar, e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: Esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará! pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear! Mias honesta ainda eu vou ficar! Só de sacanagem!
Dirão: "Deixa de ser boba! Desde Cabral que aqui todo mundo rouba!"
E eu vou dizer: " Não importa! Será esse o meu carnaval! Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos." Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo, a gente consegue ser livre ético e o escambal.
Dirão: " é inutil! Todo mundo aqui é corrupto desde o primeiro homem que veio de Portugal!"
E eu direi: " Não admito! Minha esperança é imortal, ouviram? Imortal! "
Sei que não dá pra mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.



Elisa Lucinda

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigos do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-se-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe- d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
é outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


Textos extraío do livro "Bandeira a Vida Inteira" Editora Alumbramento - Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

Manuel Bandeira

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ódio no querer

Eu odeio não querer ficar assim e não poder
Não posso porque sempre quero te ter
Quero te tocar e te ver,
Eu não sei o que acontece, mas sempre quero você.

Isso independe do dia ou do local
Eu sempre te quero e isso para mim é normal
Normal e inevitável,
Esse querer para mim é incomparável

Incomparável, inevitável e incompreensível
Por você eu sou capaz de fazer o que parece impossível
Mas tem horas que isso é tão banal que me faz odiar você

Conto os dias, horas e minutos até o momento de te encontrar
Quero te acariciar e tudo que tenho de melhor te dar
E isso que me faz não entender, e também faz aumentar esse ódio no querer.



Vítor Vieira

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A lembrança

Lembrava-me como tudo aconteceu
Lembrava dos dias e das noites
Das alegrias e das dores
E de tudo que era meu

Lembrava da felicidade,
Da tristeza
Tinha toda capacidade,
Mas me faltava certeza.

E hoje, eu não sei o que aconteceu
Vi-me feliz e voltei a sorrir
Recuperei parte do que sou eu

E me lembrei o quanto é bom estar aqui
Pois eu só me lembrava de que era feliz
Mas não lembrava como


Vítor Vieira